terça-feira, 25 de agosto de 2020


O PASTOR E AS OVELHAS
No Evangelho de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, segundo escreveu o Apóstolo João, capítulo vinte e um e versículos quinze a dezessete, encontramos a seguinte redação, na Bíblia King James Atualizada: “Assim, após tomarem o desjejum, Jesus questionou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes outros? ”. Responde ele: “Sim, Senhor, Tu sabes que amo”. Jesus o encarregou: “Cuida dos meus cordeiros”. Outra vez Jesus lhe perguntou: “Simão, filho de João, tu me amas? ”.  Ele afirmou: Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo”. Jesus lhe confiou: “Pastoreia as minhas ovelhas”. Pela terceira vez Jesus perguntou: “Simão, filho de João, tu me amas? ”. Pedro ficou angustiado por Jesus haver-lhe perguntado pela terceira vez “tu me amas”, e assegurou-lhe: “Senhor, Tu conheces todas as coisas e sabes que eu Te amo! ”. 
Os versículos imediatamente anteriores a este relato (Jo 21.1-14), definem o cenário para o diálogo de Jesus com Pedro, na presença de mais seis discípulos. Nesta cena na praia do mar de Tiberíades, Jesus fez com que Pedro vivesse uma experiência que removeria definitivamente qualquer espectro de sua negação, Pedro havia negado a Jesus três vezes. Três vezes Jesus pergunta a Pedro se ele o amava, e na terceira vez Jesus diz: “Você me ama realmente mais dos que estes? ” (NVI). A princípio tem-se a impressão de que “estes”, a que Jesus se refere (os outros seis discípulos) não lhe amavam o bastante. Mas, consultando os originais, verificamos que, na primeira vez, Jesus diz: “amas-me [a palavra grega ágape, “amor deliberado de sacrifício próprio”] mais do que estes? ” Na segunda vez, Jesus se concentrou apenas em Pedro, e usou a mesma palavra grega. Na terceira vez, Jesus usa a palavra grega phileo (que significa “afeição, afinidade ou amor fraterno”), e o que Ele perguntou, na verdade, queria dizer “És mesmo meu amigo? ” Todas as vezes, Pedro respondeu, usando a palavra grega phileo, termo que envolve a afeição calorosa e natural das emoções e, portanto, um amor mais pessoal e afetivo. Provavelmente para realçar ainda mais a magnitude deste episódio, Jesus se utiliza de um costume muito comum na época: repetir três vezes uma afirmação, que era a forma solene de um hebreu confirmar uma missão. Jesus estava, portanto, confirmando não só a Pedro, mas a todos os seus discípulos e em todas as épocas, a missão de apascentar ovelhas. Esta pergunta de Jesus a Pedro, proferida a quase dois mil anos, continua ecoando nos dias atuais: “pastoreia as minhas ovelhas”.
É evidente que Jesus não se refere a ovelhas (animal), mas aos seus seguidores, comparando-os a ovelhas. E, essa analogia não é por acaso. Analisando as características da ovelha entendemos porque Jesus faz essa comparação. Deus criou os animais. Todos eles foram criados com algum mecanismo de defesa para afastar ou atacar os seus predadores. No mundo animal, os bichos têm que ficar sempre alertas: a qualquer momento podem ser devorados por um de seus predadores. Uma parte deles tem armas poderosas contra esses ataques, os chamados “mecanismos de defesa”, que afastam ou ferem os animais que oferecem perigo. Eles podem fazer parte do próprio bicho, como venenos, espinhos e mudanças no corpo, ou ser um aspecto de seu comportamento – os animais que agem à noite ou que andam em bandos são um exemplo disso.
Como cada espécie é diferente, com organismos, habitats, rotinas e predadores diversos, cada uma tem um jeito de se defender. Todos têm seus meios de defesa, porém, a ovelha é o único animal terreno que não possui defesa alguma, ela é totalmente vulnerável, ela fica no fim da cadeia alimentar, não se defende, não tem habilidades de luta. Isto é muito interessante, descobrimos que, como ovelhas, somos totalmente dependentes do nosso Pastor, totalmente dependentes de Jesus. Esta característica deve estar sempre evidente em nós. Normalmente queremos nos defender, a nossa justiça própria quer prevalecer, achamos que estamos certos, e lutamos por isto até o fim. Isto acontece com todos nós. Esquecemos que somos ovelhas e que devemos viver na total dependência do Bom Pastor: Jesus Cristo.
A Bíblia diz que Jesus é quem nos defende, quem nos protege (Jo.10.11: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas”). Não podemos perder a característica de ovelha. A Bíblia também diz que devemos lançar sobre Ele as nossas ansiedades (1 Pe 5.7), pois Ele tem cuidado de nós. Quando nos autos defendemos, estamos dizendo para o próprio Jesus: não preciso de ti, tua defesa não serve para mim, as tuas decisões sobre os meus problemas não são as melhores, tu não sabes o que é melhor para mim! É necessário revermos nossa conduta se assim estivermos nos comportando.
Outra particularidade das ovelhas é que elas não comem qualquer coisa, elas se alimentam exclusivamente de capim, e o capim precisa estar novo, precisa estar fresquinho, precisa estar bom. A ovelha não fica atrás de todo tipo de alimento, se aparece uma novidade ali ela não corre para ver o que é, e já quer experimentar, sem saber de onde veio, sem saber quem produziu, sem saber se vai fazer bem ou mal, já vai comendo. Isto não é normal de uma ovelha. Assim deve ser o crente, o pastor tem grande responsabilidade nisso, de providenciar para as ovelhas, a alimentação genuína da Palavra de Deus. Os crentes bereanos nos dão um exemplo a ser seguido. Em Atos 17:11 lemos:: "Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim" (RA). Lucas fala que este eram "mais nobres", a ideia ali não é em relação à riqueza de bens (mesmo que pessoas ali eram de classe alta), mas eram "nobres de mente", porque? 
Uma outra peculiaridade muito interessante das ovelhas é que elas conhecem a voz do seu pastor (Jo.10.27: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem”). Conta-se uma história bem interessante acerca das ovelhas saberem ouvir a voz do pastor: Um rapaz foi à África e estando ali viu um grande lago onde muitos animais iam beber água. De repente, chegou um pastor com cerca de duas centenas de ovelhas e elas começaram a beber, depois chegou outro pastor, com outras ovelhas, então o rapaz falou meu Deus como ele vai saber quais são as ovelhas dele, pois todas ficaram juntas? Em seguida, chegou um terceiro pastor, com mais uma quantidade de ovelhas. O rapaz notou que os pastores ficaram conversando enquanto as ovelhas bebiam. Dali a pouco foi saindo um por um, e as ovelhas escutaram a voz de cada pastor chamando-as e cada rebanho seguia ao seu pastor, sem se misturar. 
Depois de conhecermos um pouco as características das ovelhas, entendemos com mais profundidade a insistência de Jesus com Pedro: “pastoreia as minhas ovelhas”. Pastor, conforme a etimologia do termo, é aquele que conduz as ovelhas ao pasto e as vigia, no pasto.  Pedro atendeu realmente o chamado do Mestre Jesus e foi um verdadeiro pastor na etimologia da palavra, conduziu-as e as vigiou no pasto. Aprendemos com Pedro que ser pastor é muito mais que ser um dirigente de cultos. Apascentar é muito mais do que isso, é se preocupar com os irmãos que estão fracos na fé, com enfermidades, com problemas de família, financeiros, etc. Pedro visitava as igrejas que se multiplicavam em toda a Judéia, Galiléia e Samaria. Com aquele zelo pastoral que não queria saber das notícias por outros, mas por si mesmo, chegou a uma cidadezinha por nome de Lida (At 9.32), que na verdade, era uma aldeia cerca de dezoito quilômetros a sudeste de Jope na planície de Sefelá. Ora um grande pastor, como Pedro, com tantas coisas importantes para fazer, deveria se incomodar com uma igrejinha tão pequena como a de Lida? Mas ele tinha essa preocupação, e isso, é uma característica de um verdadeiro pastor, não se importa apenas com grandes igrejas que tem grandes” entradas”, mas com igrejinhas pobres que tem o mais rico tesouro: que são almas que foram compradas e remidas no sangue de Jesus. 

O apóstolo Pedro quando chegou ali, encontrou um homem paralítico jazendo em uma cama já a oito anos, chamado Enéias. Então vendo aquela situação e com o seu coração pastoral condoído disse-lhe: ´Enéias Jesus Cristo te dá saúde; levanta-te e faze a tua cama. E logo se levantou” (At 9:34). O resultado dessa visita pastoral é que Enéias ficou curado e que todos habitantes de Lida e Sarona viram isso e se converteram ao Senhor. Dali ele foi chamado para Jope, onde havia morrido uma discípula chamada Dorcas e Pedro orando por ela e chamando-a ela levantou-se, e isso foi notório por toda Jope, e muitos creram em Jesus. Vejam só o resultado de duas visitas pastorais: Um paralítico curado, duas aldeias inteiras convertidas, uma mulher ressuscitada e muitas pessoas salvas. Se Pedro não tivesse esse cuidado pastoral quanto prejuízo a igreja de Lida, Sarona e Jope teriam tido? Isso é o que está acontecendo hoje, pastores que não visitam as ovelhas, não aconselham, e quanta tragédia poderia ser evitada se isso fosse uma prática comum, porém divórcios acontecem, pessoas se desviam, ou são cooptadas por falsas religiões. Quantos enfermos com seus familiares são abandonados a sua própria sorte pois os pastores estão envolvidos com coisas grandes demais e não têm mais tempo para apascentar. Todo o seu tempo é preenchido com construções de templos, com problemas contábeis, com viagens, bancos, reuniões em convenções, para resolver problemas ministeriais, isto para não falar daqueles que, prevalecendo do cargo de pastor, vão atrás de cargos políticos, como se fosse possível fazer política e apascentar ovelhas ao mesmo tempo.  A única coisa que verdadeiramente deveriam estar fazendo que é cuidar das ovelhas do Senhor, não sobra tempo para isso. Aparecem no templo só para dirigir o culto e então voltam aos seus afazeres, até o próximo culto. E as ovelhas ficam entregues à sua própria sorte, embaladas com discursos semanais muito piedosos, porém sem nenhuma eficácia (a Palavra de Deus é viva e eficaz (Hb 4.16)).
A Bíblia diz em provérbios 27.23, “Procura conhecer o estado das tuas ovelhas; põe o teu coração sobre os teus rebanhos”. Isto é da maior importância, tanto do ponto de vista secular como espiritual. Quem cuida de ovelhas, sabe que se não tiver cuidado, o prejuízo é líquido e certo, pois como já vimos acima, uma ovelha não sabe se defender e há muitos predadores. Ninguém é tão estúpido de deixar o seu patrimônio nas mãos de qualquer um, é necessário que seja alguém responsável e cuidadoso. Será que Deus exigiria menos do que um empresário deste mundo? É só lermos em Gênesis 31.38-40: “Estes vinte anos eu estive contigo; as tuas ovelhas e as tuas cabras nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho. Não te trouxe eu o despedaçado; eu o pagava; o furtado de dia e o furtado de noite da minha mão o requerias. Estava eu assim: De dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o meu sono fugiu dos meus olhos”. Que vida difícil de um pastor da época de Jacó, tinha que prestar contas de cada ovelha aos seus cuidados, havia um preço por cada uma delas. As ovelhas pastoreadas por Jacó eram animais herbívoros, que tinham um valor monetário, mas, e as ovelhas espirituais do Senhor que foram compradas com o sangue derramado do filho de Deus? Devemos estar cientes de que o pastor será responsabilizado por aquelas que se perderem das que estão sob os seus cuidados. O valor de tais ovelhas é altíssimo, pois o sangue de Jesus tem um valor infinito, e Ele entregou esse capital valiosíssimo nas mãos do pastor, e Ele o requererá. “Apascenta as minhas ovelhas”, apenas isso, nada mais que isso. É o que Jesus outorgou a Pedro e aos pastores de hoje.
Davi que, apesar de seus erros, teve um coração perfeito para com o SENHOR (1 Re 11.4), tendo a consciência de que as relações entre Deus e o seu povo são assemelhadas às que existem entre o pastor e as suas ovelhas, descreve no salmo de número vinte e três a felicidade de se ter o SENHOR como pastor. Pastor que expressa o seu empenho e incessante cuidado pelos seus seguidores, os quais são o precioso alvo do seu divino amor. Ele tem cuidado de cada um deles, como um pai cuida de seus filhos e como um pastor, das suas ovelhas. Quando o salmista diz “nada me faltará”, significa que não me faltará nada que for necessário à realização da vontade de Deus na minha vida e que me contentarei com a provisão e o cuidado do Bom Pastor, mesmo em tempos difíceis, porque confio no seu amor e cuidado por mim. Mediante esta metáfora (da ovelha) frequentemente empregada no Antigo Testamento, Deus é comparado a um pastor, ilustrando o seu grande amor por seu povo. O próprio Senhor Jesus empregou a mesma metáfora para expressar seu relacionamento com os seus (Jo 10.11-16; cf. Hb 13.20; 1 Pe 5.4). Duas verdades destaca-se aqui, primeira: Deus, através de Cristo e do Espírito Santo, está tão afeiçoado a cada um de seus filhos, que Ele deseja amar, cuidar, proteger, guiar e estar perto desses filhos, como o bom pastor cuida das suas ovelhas ( Jo 10.11,14); segunda: os crentes são as ovelhas do Senhor, pertencem a Ele e é alvo especial do seu amor e atenção. Embora todos nós andávamos desgarrados como ovelhas (Is 53.6), o Senhor nos redimiu com seu sangue derramado (1 Pe 1.18,19), e agora somos dele. Como suas ovelhas, podemos lançar mão das promessas desse salmo quando atendemos a sua voz e o seguimos. Porque o Pastor está presente e perto de nós, podemos deitar em paz, livre de todo medo. O Espírito Santo como nosso Consolador, Conselheiro e Ajudador comunica-nos o cuidado pastoral e a presença de Cristo (Jo 14.16-18; cf. 2 Tm 1.7). O nosso descanso tranquilo na presença do SENHOR terá lugar em verdes pastos, isto é, em Jesus e na Palavra de Deus, que são indispensáveis a uma vida abundante (Jo 6.32-35,63; 8.31; 10.9; 15.7).  Quando ficamos desanimados, o Bom Pastor reaviva e revigora a nossa alma mediante seu poder e graça (Pv 25.13). Em tempos de perigo, dificuldade, e mesmo de morte, o crente não teme nenhum mal. Por quê? Porque o SENHOR está conosco em todas as situações da vida (cf. Mt 28.20). A vara (um pedaço de pau curto) mencionada pelo salmista nesse salmo, é uma arma de defesa ou disciplina, que simboliza a força, ou seja, o poder e autoridade de Deus (cf. Êx 21.20; Jó 9.34). O cajado (uma vara longa e delgada, tendo um gancho numa das extremidades) serve para trazer a ovelha para perto do pastor, para guiá-la no caminho certo, ou para removê-la em caso de perigo. A vara e o cajado de Deus nos dão certeza do seu amor e orientação em nossa vida (cf. 71.21; 86.17).
Esse salmo de Davi nos mostra que, em qualquer situação o crente pode confiar que o Bom Pastor fará com que todas as coisas cooperem para o seu bem (Rm 8.28; Tg 5.11). O alvo do crente que segue o Bom Pastor e desfruta da sua bondade e misericórdia é um dia estar com Ele eternamente (1 Ts 4.17), contemplar sua face (Ap 22.4) e servi-lo para sempre na sua casa (Ap 22.3; Jo 14.2). 
Estamos vivendo os tempos trabalhados preditos por Paulo em 2 Tm 3, mas, por mais difíceis que sejam os tempos, lembremo-nos das palavras de Jesus a Pedro: “pastoreia as minhas ovelhas”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário